Muito além de uma estrutura biológica, o corpo é, para o ser humano, suas experiências, suas vivências pessoais. Todos nós somos profundamente marcados por elas, ainda que não as compreendamos ou as neguemos. As memórias de minha infância me marcaram profundamente. Dentre tantas memórias minhas já narradas, uma delas tem origem na casa de Seu Luiz Aires.
Eu tinha por volta de dez anos. Era uma noite serenosa de nossa amada Senador Sá. Eu andava pela calçada na rua Pe. Delmonte quando escutei o som de uma sanfona. Ao curiar pela janela (desculpem-me pela falta de educação, rsrs) eu o avistei. Já o conhecia vendo-o passar pelas ruas vendendo seus espanadores de tucum e cabo de pereiro, mas não sabia de seu talento musical. Aquela cena me fez parar e a convite dele, adentrei e apreciei o talento musical de um homem que num passado, já remoto, animara os arrasta-pés da região.
Ele era um apreciador de valsas. Era o ritmo que ele mais gostava. Embora dominasse as modas: baião, xote e forró que, de longe, era a preferência local, eram as valsas que seduziam seu apurado gosto e era à elas que ele dedicava seus solos quando tocava na privacidade de seu lar. Eu, já depois de adulto, o visitei muitas vezes e, ao solicitar que tocasse, ele sempre perguntava, como se fosse a primeira vez: "Gosta de valsa?" A última vez que estive em sua casa, já com seus cem anos de vida completos, Seu Luiz me recebeu como sempre fizera: com a alegria, a humildade e a cordialidade que lhe eram próprias.
Apesar de suas limitações visuais e auditivas impostas pela alta longevidade, reconheceu-me: "Ah! É o Wagno". Naquela ocasião, fui fazer um registro fotográfico. Considero as marcas da velhice muito estéticas. Eu queria marcar a passagem de seu centenário. Ele, prontamente me recebeu, pôs uma camisa de botão de cor azul celeste e seu chapéu, uma marca de nosso bravo sertanejo. Pediu a sanfona e enquanto eu o fotografava, tocou algumas valsas. Aquele foi nosso último encontro e, como sempre, depois que terminara seus solos, perguntou-me se eu queria tocar.
Peguei a sanfona e arremedei, por ali umas duas canções do outro Luiz, o Gonzaga. Seu Luiz Aires, tal asa branca, "bateu asas do sertão" e nós, tal assum preto, "canta(mos) de dor". Nossa dor, no entanto, não é uma dor inconformada com a morte, nossa irmã, como disse São Francisco de Assis. Mas uma dor cheia de cheiros, de sons, de sabores e de saudades. Seu Luiz Aires, muito obrigado. Descanse em paz.
Com afeto, Wagner Gomes

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